[ANÁLISE] Coringa: as cores e o desenvolvimento de personagem

By Aline Braga - novembro 10, 2019


Demorei a começar a escrever essa análise. Quase um mês para ser exata. Vi o filme novamente. Tentei digerir o máximo que pude. Mas se tem uma coisa impossível no filme Coringa (2019) é se sentir confortável com ele. E era exatamente esse o objetivo. Um personagem tão popular na cultura pop teve, mais uma vez, uma de suas melhores representações no cinema. Com uma combinação perfeita entre os planos e enquadramentos do diretor Todd Phillips, a fotografia de Lawrence Sher, a atuação impecável de Joaquin Phoenix, a edição certeira e a trilha sonora incômoda, o filme conseguiu explicar de maneira indiscutivelmente brilhante a gênese desse personagem emblemático.


Nesse artigo, vamos analisar apenas a fotografia, a escolha das cores e a contribuição desse artifício para o desenvolvimento do personagem. Para começar, precisamos entender como esses recursos funcionam e o porquê deles serem tão importantes nas obras cinematográficas.

Fotografia no Cinema
A fotografia no cinema consiste basicamente na captação de imagens. Ou seja, abrange tudo aquilo que será visto pelo espectador. Mas não é só isso, essa área controla todo o processo de construção e registros da produção. Ou seja, a fotografia é responsável por levar a atmosfera imaginada pelos diretores e roteiristas pela as telonas. 
O diretor de fotografia, por exemplo, é responsável por trabalhar ao lado do diretor e formular ângulos e enquadramentos de uma cena, definir planos, tipo de luz, enquadramentos e trabalhar com o tema desse texto: as cores do filme.

Psicologia das Cores
As cores no cinema não servem apenas para deixar as cenas visualmente bonitas. Como dito no tópico anterior, uma das funções da fotografia é reproduzir sentimentos e intenções dos criadores da obra para que as pessoas possam identificá-los. E qual o melhor recurso para atingir esses objetivos? A colorização das cenas! É por meio da cor que podemos acentuar o estado de ânimo e as emoções transmitidas por personagens (segura bem essa informação aqui!), ajudar na percepção do tempo (muitos filmes com linhas do tempo não lineares usam a cor para demarcar a temporalidade) e do clima (quente e frio, por exemplo) e, de forma geral, representar o conceito da cena ou da obra. 
Em algumas obras, as cores são pensadas como um importante elemento para o desenvolvimento da narrativa do filme. E é o caso de Coringa.

Coringa e as cores
Na obra de Todd Phillips, explicitamente, três cores são predominantes: o amarelo, o azul e o verde. Cada cor representa um estado de espírito do personagem principal e o conjunto delas, me arrisco a dizer, representa a obra por completo. Com o auxílio desse recurso, a transformação do Arthur Fleck no maior vilão da DC acontece diante dos nossos olhos de maneira coesa e harmônica, apesar de louca e doentia.


Azul: a melancolia de Arthur Fleck
No início do longa, nós temos um personagem com problemas psicológicos, tomando 7 medicamentos diferentes, na margem da sociedade. Arthur Fleck tem a postura curvada, quase que tentando se esconder do mundo cruel que o cerca. Todas as cenas em que ele está vulnerável, triste e melancólico, a cor predominante na cena é o azul. 

Essa cor é considerada fria e no cinema ela pode representar calma, frieza do personagem ou do ambiente e, no caso do filme em questão, isolamento e melancolia. Durante todo a história, quando o personagem está em seus piores momentos, desconfortável consigo mesmo, a atmosfera do ambiente é azul. 



Como exemplos, podemos citar na primeira cena do consultório um homem introvertido, triste, que não consegue se comunicar bem. Até sua expressão corporal e sua fala são inquietas e incômodas. Também temos a cena da cozinha, onde ele tenta entrar na geladeira - talvez pra se esconder da realidade que o tortura - e seu corpo está ainda mais curvado, quase que dentro de si mesmo. Ambas têm colorização azulada e esse padrão se repete durante toda a obra.


Amarelo: os primeiros indícios
O amarelo também pode representar a alegria e a inocência, mas esse definitivamente não é o caso. Todas as cenas que tem esse tom predominante, representam a loucura e a vingança do personagem. Logo depois do primeiro crime, Arthur Fleck passa por um enorme corredor de luzes amareladas (aliás, os corredores são um elemento narrativo muito utilizado pelo Todd Phillips no filme, mas isso é papo pra outro post). Essa cena pode facilmente representar uma transição entre o homem melancólico e o vilão enlouquecido.

Uma coisa muito importante a ser ressaltada sobre essa cor é a aparição sorrateira dela em algumas das cenas onde o personagem está no ápice de seu desespero. Como na cena da geladeira, citada anteriormente, que apesar de ser predominantemente azul, conta com uma janela com uma luz amarela iluminando a cena, como se a loucura insistisse em entrar. Essa mesma presença sutil da cor amarela acontece em algumas outras cenas.


A cor verde: a metamorfose está completa
Azul e amarelo são cores primárias. A junção delas resulta em uma secundária: a verde. Propositalmente ou não, a cor que representa a transformação final de Arthur Fleck no Coringa é justamente essa. O verde no cinema geralmente representa a natureza, a calma. E nesse filme em questão, a cor representa a racionalidade. Você deve estar se perguntando como alguém que acabou de assumir sua própria loucura está racional, mas é isso mesmo. Antes dos crimes, como o próprio personagem diz em sua última sessão na terapia, ele sequer sabia que existia. Quando ele finalmente dá lugar à persona, ele sente que sim. Que existe. Que está ali. É a racionalidade. É o descobrimento de si. 
A primeira aparição evidente desse tom mais esverdeado na atmosfera é na cena da dança no banheiro, logo após o primeiro crime cometido, no metrô. Arthur Fleck não está preocupado, não está arrependido. Ele pela primeira vez se sente confortável dentro da própria pele, da própria loucura. E quando ele é convidado para o programa de TV, pinta seu cabelo de verde. Obviamente já é a cor característica do personagem desde os quadrinhos, mas isso não deixa de ser representativo. Esse talvez tenha sido o último estágio da transformação. A pessoa não existe mais, apenas a persona. Arthur Fleck finalmente se transformou no Coringa.

BÔNUS - Cena final [Contém spoilers]
A única parte do filme que não conta com nenhuma dessas três cores, incluindo o cabelo do Coringa voltando a ser castanho, é a cena final. O personagem está no Arkham State Hospital, em uma camisa de força, conversando com o que parece ser uma psicóloga. A cena é completamente branca. 

Em um corte de cena, nosso amado vilão sai do quarto em que estava e deixa pegadas sujas de sangue pelo caminho. Em seguida, ele é perseguido pelos funcionários do manicômio, mas não é pego. O branco da cena pode facilmente representar a paz que ele encontrou na maldade e na loucura, já o vermelho, o sangue, é a representação do rastro de morte que ele deixa por onde passa.  


E aí, você notou alguma dessas coisas enquanto assistia o filme? Acha que esqueci de falar sobre algo? Conta pra mim aí nos comentários :)

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2 comentários

  1. Uma análise sucinta e rica ao mesmo tempo. Explica a função das cores no cinema e seu significado. Trás enriquecimento ao leitor e o aproxima da obra. Mostra a importância de se observar os detalhes no cinema.
    Parabéns Aline.

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  2. Adorei a análise! Bastante clara, mas profunda também. É muito legal ver como podemos comunicar tanto sem precisar falar nada, "apenas" mostrando.

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