Sophia e os jovens que não estão nem aí para empregos "seguros e estáveis"

14:46:00

O comportamento de Sophia, personagem principal da série original Netflix GIRLBOSS, pode inicialmente parecer de uma garota mimada e imatura, mas se você olhar bem, podemos ver na personagem uma característica dos jovens da nossa geração: nós estamos perdendo o interesse em empregos considerados estáveis, mas que não nos levam pra lugar algum. Com chefes que nos dizem o que fazer o tempo todo e onde nossas escolhas e opiniões são irrelevantes. A nossa Geração Y, assim como Sophia, não quer passar anos e anos em uma empresa esperando para subir de cargo ou para, finalmente, conseguir um pouco de autonomia naquele mesmo-trabalho-de-todos-os-dias. Nossa geração quer fazer suas próprias escolhas, quer ser seu próprio chefe, sem precisar passar anos numa faculdade ou num emprego pra isso. Nossa geração quer o agora e isso não é um problema, vou te explicar porquê.
Enquanto nossos avós ainda acreditavam que a realização estava relacionada ao sucesso de sua família e de seu casamento, nossos pais tentaram provar pra eles que essa realização podia chegar de outra forma: trabalhando. E assim eles fizeram. Trabalharam duro, conquistaram seus objetivos e provaram para nossos avós que eles poderiam ser felizes e bem sucedidos sem necessariamente ter um casamento que durasse a vida toda. Agora eles querem que façamos o mesmo. “Você precisa entrar em uma boa universidade!” “Mas esse curso dá dinheiro?” “Não é melhor fazer o concurso do Banco do Brasil?” “Se não estuda, não tem futuro!”. Quem não ouviu uma dessas frases enquanto ainda estava escolhendo o que cursar na faculdade que atire a primeira pedra. Mas será que alguém com 17 anos tem mesmo que decidir o que vai fazer pelo resto da vida nessa idade? Nossa geração quer provar que não.
Escolhi o que queria cursar com mais ou menos 15 anos e agora estou nos últimos anos da faculdade com quase 100% de certeza de que estou no lugar certo. Mas quer saber? Sorte a minha. Fui uma pequena exceção. Porque eu tenho certeza que você conhece alguém que já trocou ou quer trocar de curso na faculdade. Se você não conhece, existe uma grande probabilidade dessa pessoa ser você. E me deixe adivinhar: você escolheu sua futura profissão com 17 ou 18 anos, no seu último ano do ensino médio. Provavelmente, depois de alguns sermões de seus pais, dizendo o quanto vocês precisam decidir o querem e blá-blá-blá. Então você escolheu o que mais te parecia um bom lugar para ir, mas no meio do caminho descobre que não é bem aí que você deveria ter ido. E agora?
Em alguns casos, pânico. Nunca se falou tanto em ansiedade, depressão e outros transtornos psicológicos como em nossa geração. Ok, também podemos associar isso às novas possibilidades de debate sobre o assunto, mas nós não estaríamos imersos nesse tipo de assunto se não tivéssemos tanta gente tomando remédios pra conseguir dormir porque acha que tudo o que fez durante o dia não foi suficiente. Nós estamos tão desesperados em conseguir suprir as expectativas que nossos pais nos deixaram de herança, que acabamos nos cobrando também e criamos uma imensa bola de neve de ansiedade e frustração.
Nossos pais conquistaram tudo através do que eles consideram trabalho estável e seguro. E agora eles querem garantir que tenhamos todas as oportunidades que talvez eles não tiveram para conquistar essa estabilidade também. Nossos pais nos criaram para ser o que nós quiséssemos, desde que nós escolhêssemos ser engenheiros, médicos ou alguém que dedica a vida inteira a passar em concursos. A gente as vezes até tenta, mas sabe que nosso coração não está ali. É aqui que surge o outro lado da moeda: quando não somos fisgados pela frustração de ser quem não queremos ser, nós nos reinventamos. E é por isso que tem tanta “profissão nova” por aí. A gente vira Youtuber, blogueiro, roteirista de esquetes para internet, monta loja de roupas online (como a nossa personagem Sophia), larga tudo para viajar pelo mundo e documentar isso. É muito fácil encontrar por aí a história do rapaz que largou cargo de gerente de uma empresa para abrir seu próprio Foodtruck de Sushi ou da moça que desistiu de tudo pra vender cupcake.
O que eu quero dizer é que nem todo mundo sonha em passar 6 anos estudando Medicina ou 5 anos carregando um Vade Mecum por aí. Que nem todo mundo liga se o seu emprego é vitalício e esbanja estabilidade. A gente não precisa escolher o que quer pro resto da vida com tão pouca idade como somos praticamente obrigados a fazer. E está tudo bem assim. Mas não me entenda mal, tudo o que eu disse até aqui não quer dizer que a gente quer deixar de estudar e trabalhar ou que queremos algo fácil. Muito pelo contrário, queremos trabalhar duro. Mas queremos trabalhar com o que a gente ama, sem se importar se isso vai nos trazer status ou um cheque gordo no final do mês.

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